terça-feira, 15 de setembro de 2009

Iskra


Fio desencapado pedindo toque.
O olho analisa.
Visão e tato, porém, discrepam.
O que o olho sabe a mão não pode saber; e vice-versa.
O cérebro, parco mediador, pois cúmplice de ambos, hesita.
A mão se move.
(Deve haver vida, deve haver vida).
De que vale o raio no céu.
De que vale o fogo na terra.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Mecanismos


Relógio parado.
O tempo não.
Nem pra ele, nem pra mim.
Recoloco-o à volta do pulso.
Há uma reação: o pulso comunica tempo ao mostrador.
Milagre.
E volto a caminhar pé ante pé.

domingo, 13 de setembro de 2009

Sparagmós e Paideia


Pilha velha de cds.
Tanto tempo e estavam grudados.
O som que sairia era e... e... e... e...
E um.
Ouvi, esquartejado por inteiro.

sábado, 12 de setembro de 2009

Send in the sand


Beira-mar.
Do mar, a casa.
Da casa, o mar.
De manhã, de tarde, de noite.
De novo: de manhã, de tarde, de noite.
O olho, que alternava de um extremo a outro, postou-se no meio.
Olho de areia.
A casa ficou mais casa, também mais ficou o mar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Horizonte


Balão de todas as cores em jardim começou a subir.
Entre criança feliz de braços erguidos e céu.
Infinito foi o tempo, após o início e antes do fim.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Faxina


Ex-travesseiro.
Rescaldo de travessuras.
Pode abrigar aranhas.
Ou.
A empregada tergiversa.
Encontro de abandonos, porém – ela e o travesseiro.
Antes do lixo, o restolho lembrou velho idílio: ao lado de homem em quarto quente esperando não sei quê.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Echoes


Boia em alto mar.
Carcomida por vento sal sol chuva.
E.
Equilibrada entre onda e onda, abandono e aceno.
Um barco a tocou e colheu invisível deriva.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A praia


Orifício no meio da areia.
Maria farinha ou tatuí?
Ou?
E, ainda, o medo de perguntar.
Olho de criança e buraco no chão: na vastidão de mar, céu e brancura, reina o diálogo dos orifícios sem fundo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A coisa


Celular obsoleto e reticente.
Passou sua hora de partir; no entanto, permanece.
À sua maneira, velhos, adultos, jovens e crianças registram-lhe a dureza e ausência de cor.
Mais tarde, o celular reaparece – como frase não pronunciada, exaltação, esquiva ou franco sorriso.
E o tolo de sempre indagaria sobre a fonte de tudo aquilo – um móvel cidadela, em cujo centro se guarda um objeto inútil e eterno.

sábado, 5 de setembro de 2009

Altar


No limiar do imperceptível, os farelos.
Opacos sobre a toalha de mesa, igualmente opaca.
Houve gente – donde o rastro de calor e o desalinho de cadeiras.
E mãos que se ergueram em honra do pão, que em seguida sucumbiu, quase por inteiro, não fossem os inexpressivos sobreviventes.
De minha parte, fez sentido pensar em dizer, quem sabe, Aleluia.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Estase


Não era fluxo, era poça.
Sugeria eternidade.
Autocontida, não tinha pretensão a deslimites.
E vigorava.
Por isso, eu passava sempre por ali.
Sempre com o temor de que ela não estivesse.
Embora fosse mais certo que não houvesse eu.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Let's party


Bananas espalhadas.
Extravio e semeadura.
Pássaros se achegaram.
Houve harmonia entre grandes e pequenos.
Algum respeito também com as bananas – e deglutição.
Quando o sol atingiu certa altura, debandaram.
Sobre o terreno, sobras em insuportável fervor.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Border


Bombom ao alcance da mão.
Bombom liso; mão encarquilhada.
Bombom reluzente; mão fosca.
Bombom intacto; mão precária.
Bombom inerte; mão que vem.
Um instante antes do toque (que ocorreu?), a chama sem fonte ou autoria.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Thaumazein


Dinamite encaixotada, no canto do recinto.
Empoeirada, sólida.
Ah! uma fresta, que permitisse uma visão.
Em sonho, vi tantas vezes o cilindro rubro... seria essa a cor?
(E um prenúncio de explosão).
A madeira impassível e a distância infinita me exauriam.
Templo e homem, porém, não elegeram um ao outro.
E, diante da coisa fechada, eu me esvaía em presença radiante.

domingo, 30 de agosto de 2009

O menino e o engenho


O engenho tinha um aspecto estropiado.
Posto em ação, entretanto, funcionava perfeitamente.
O operador poderia ser qualquer um, desde que seguisse um sucinto protocolo de procedimentos banais.
Assim, o engenho era quase autossuficiente.
A humanidade que demandava era sobretudo a da platéia, de preferência, unitária e infantil.
Faíscas dos fios e dos olhos mimetizadas – à volta a mesma vida impertinente.

sábado, 29 de agosto de 2009

O partido das coisas


Bisnaga.
No abandono da mesa, falava mais o conteúdo.
Mas e a tampa, as letras, as cores, a intimidação metálica aos pretendentes?
O que sairia seria branco e cremoso.
Necessariamente?
Eu não me atreveira a um aperto de cinco dedos.
E sei que o suspense não perduraria.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Düne


No alto da duna, castigado pelo sol, pensando no monge budista que se deixou queimar.
Eu poderia fazer o mesmo.
Mas seria outro o narrador da minha história.
Para evitar a usurpação, eu deveria, então, me encaminhar até o ponto extremo a partir do qual ainda houvesse retorno.
Como, porém, encontrá-lo?
E o ardor me exauria e dopava.
Quase não era mais eu.
Voltei – do limite: preciso, fulcral, absoluto.
No sopé, envolto em outro torpor, até a vendedora estúpida de não-sei-quê era mais esperta e pertinente.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

sich unterhalten


O encontro evoluiu da timidez à efusão, passando por estágios intermédios, aos quais acabou por retornar.
O novo equilíbrio não perdurou, corroído que foi pela inevitável ansiedade.
Como desdobramentos possíveis, o tédio ou a evasão.
Mas eis que.
Não geral, a princípio sequer pleno.
Porém inequívoco.
Seu nome?
Um mesmo sim.
– As novelas têm sempre razão.
– Assim, você me disse: amo você.
– E é meu o seu amor.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O cordão


– Gritos ensurdecedores emudecem os próprios gritos.
– Sim, e formam a nossa volta uma camada protetora.
– A fúria alheia nos fornece ninho e paz.
– E propicia nossa união.
– São todos contra nós.
– E a nosso favor.
– Em breve, extenuados, silenciarão.
– Enquanto poupamos energia.
– Somos vis?
– A vitória nos redimirá.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mão em concha


Figura soturna.
Às vezes ridente.
Outras, falante.
Ainda quieta e semovente.
Ninguém.
De cor nenhuma ou todas.
Ausente.
Chegante.
Dotada de halo ou da dureza sem véu das coisas.
Húmus e sequidão.
Foi sendo que me interpelou:
– Você não?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A horse


Deposta a espada no pó.
Sandália e ânimo igualmente submersos.
Haveria ainda o grito.
Só não quem o ouvisse.
Mas eu desafiei o céu sem fim e o peito imaterial.
E, então, palhaço refeito, assenti: nunca houve voz.

domingo, 23 de agosto de 2009

Ludens


Na minha infância de beira de rio, vi todos os dias e à mesma hora o barqueiro passar.
Continuei a vê-lo a caminho da escola e, depois, do trabalho.
Foi a mulher dele que me disse:
– Morreu.
Não tive dó da casa não-casa, a boca não-boca, os peitos não-peitos e do vazio espalhado.
E aquela história de haver sempre um brinquedo no mesmo canto e agora não haver mais era também alguma brincadeira.

sábado, 22 de agosto de 2009

Leviatã


Munição havia de sobra.
E soldados, generais e comandantes intermédios.
À disposição, campo de batalha e inimigo de respeito.
E um árbitro, porém, hesitante.
Nós percebemos.
O inimigo também.
Foi sem dó que o dispensamos:
melhor uma última batalha, que uma batalha sem fim.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pletora


Vivo aroma.
E o resto dela, por extensão.
E eu seria lá – vivo –, dentro da mulher halo túnel tudo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Solipso


A incontornável humanidade.
A minha, claro.
Mais que obscena: íntima.
A que me é e com a qual eu falo.
A que me fala e subjuga.
Asfixia e reoxigena – como uma dádiva provida de devido desdém.
E, no entanto, ela se aproximava.
– Já me basto...
Se houvesse sopro, é o que eu lhe diria.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Duo


O vizinho atacou com Vítor e Leo.
Respondi com U2.
Ele, Bruno e Marrone.
Eu, The Corrs.
O golpe: um pagode.
Contragolpe: Einstürzende Neubauten.
Pra me aniquilar: a eca da eca, o lixo do lixo, o entojo do entojo.
E eu, Pierre Boulez, no fígado do porcalhão.
Hora do almoço: churrasco na casa dele.
Convidado de honra: eu.
Por testemunha, o silêncio.
E o universo se achegou.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Helena


Trouxe os despojos.
Repousados em minhas mãos, com elas se confundiram.
E o tempo passou.
Para todos, fui, então, fracasso e caridade.
Ela, que queria um homem, somente me disse:
– Ao vencedor, a mulher.
E eu me lembrei de turva e original história em que isso era verdade.
Seu oposto também.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Hush


Éramos todos.
E o líder.
E os ventos da bonança.
O universo, nosso – e os cimentos do amor.
Meu filho tocou minha mão.
Assim se gesta uma queda.
E não havia o que dizer.

domingo, 16 de agosto de 2009

Flip Side


– Voltei.
– Ah! sim?
– Demorei?
– O tempo passou?
– Fui longe.
– Havia o espaço?
– E aqui estou.
– O aqui é que não.

sábado, 15 de agosto de 2009

Borda


– E há o túnel.
– Para onde leva?
– Não se pode saber.
– É de fato um túnel?
– Assim o chamamos por convicção ou convenção.
– Devo percorrê-lo?
– Não se pode dizer.
– Teria permissão?
– Nem impedimento, talvez.
– O túnel existe pra sempre?
– Pra sempre. Mas não pra mim ou você.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Vereda


– O que você leva e traz?
– Areia.
– Para?
– A nova para a ampulheta; a velha para o fundo do tempo.
– O tempo tem fundo?
– Na verdade, não; o tempo é vazio.
– E, no caminho, o que vocês conversam?
– Esclareço a areia acerca da dor e glória da forma; ela me segreda o deserto.
– Quem é o mais convincente?
– Não sei, mas sinto às vezes que estamos próximos demais.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Leia crônica política nova de Sparagmós em: http://mscudder.blog.uol.com.br

Templo



– Bem-vindo à sala.
– A sala...
– Sim, a sala.
– A sala dos livros.
– Sim, os livros.
– Os livros...
– Há já uma emoção?
– Uma emoção...
– Sim, uma emoção.
– Há: a sala, os livros e eu.
– Mas há já nada?
– Nada...
– Sim, nada.
– E tudo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Concordância


– A coisa.
– Sim, utensílios.
– A coisa é antes.
– Sim, a matéria-prima.
– Ah! bem antes.
– Matéria-bruta.
– A matéria sem adjetivo.
– É cruel de tão antes.
– É quando se morre...
– Quero as coisas, não a morte.
– A coisa é depois.
– Qualquer coisa?
– Bem depois.
– É cruel de tão depois.
– É quando se vive.
– Quero as coisas, não a ...
– A coisa sem plural.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Lapso


– A verdade é que as duas não se entendiam.
– Mas se amavam?
– Sim.
– E prosperaram juntas?
– Sim.
– E os filhos?
– Envoltos no amor.
– E o resíduo?
– Sim, o resíduo.
– Como eu e você?
– E tudo.
– Mas nunca há tudo.
– Sim, o resíduo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Mestria



– Acorremos a tua presença; a tua presença. Sim, a tua presença.
– Poderei expor minúcias?
– Sim, toleraremos as minúcias.
– Exporei verdades?
– Toleraremos as verdades.
– Falarei a todos?
– Nenhum faltará.
– Serei ouvido?
– ...
– Achegai-vos, portanto.

domingo, 9 de agosto de 2009

Vamo que vamo?


Ao que parece, foram os livros de Alice H. Amsden, A ascensão do "resto", e Ha-Joon Chang, Chutando a escada, que desencadearam a nova onda desenvolvimentista brasileira, a partir do início dos anos 2000.
Não tem problema a provocação ter vindo de fora.
E, paciência, que tenha demorado tanto.
O importante é que veio e, mesmo com alguma dose de fundamentalismo, está ajudando a mudar a pauta econômica do país, embora haja ainda pouca gente da política atenta à contribuição dos novos desenvolvimentistas brasileiros.
O que suas reflexões, direta ou indiretamente revelam?
1) É estupidez os governos dos países em desenvolvimento seguirem os conselhos econômicos dos governos dos países ricos e de intelectuais representantes do establishment econômico mundial.
2) Os países que seguiram esses conselhos se desenvolveram pouco; os que não seguiram e adotaram uma estratégia de desenvolvimento a partir de sua própria realidade e interesses prosperaram mais.
3) O caminho do desenvolvimento é capitalista; é isso que explica por que, enquanto as economias asiáticas estão "bombando", Cuba está no fundo do poço da pobreza e da estagnação, agarrada à desculpa do embargo econômico imposto pelos EUA, e quase todo o restante da América Latina, agarrada a chavismos, "socialices" e corporativismos, apenas engatinha.
Ou seja, capitalismo com independência de política econômica em relação aos ricos e articulação inteligente entre Estado e mercado são condições sine qua non do nosso desenvolvimento.
A isso é preciso agregar a sustentabilidade ambiental.

Bola quicando


Marina está prestes a topar o convite do PV.
O vice pode ser Cristovam, que teria, certamente, que deixar o PDT.
Montariam um programa forte, baseado em sustentabilidade ambiental, economia do conhecimento, alto investimento em educação e inclusão social.
E, no segundo turno, caso seja disputado mesmo por Dilma e Serra, negociaram o apoio com a candidatura mais sensível a suas propostas.
Cristovam ficaria, também, em ótimas condições de barganhar o Ministério da Educação no próximo governo.
Que lhes parece?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Respostas de futuro


É justo que o Brasil cobre da Colômbia e dos Estados Unidos explicações sobre a implantação de bases militares estadunidenses em solo colombiano.
Os dois países, inclusive, assumiram que deveriam ter tratado a questão, desde o início, com mais transparência.
É compreensível que o Brasil não hostilize Chávez e, no caso da Petrobras, não tenha sido muito duro com a Bolívia, embora me pareça claro que tenha sido brando demais.
Tudo bem: se o Brasil quer ser líder na região, deve agir com cautela e habilidade.
Mas, se o Brasil quer mesmo ser líder na região, deve, em primeiro lugar, definir o conteúdo dessa liderança.
Objetivamente: o Brasil se assume, para o presente e para o futuro, como um país capitalista ou não?
Essa questão se desdobra em outra: o Brasil é anti ou pró-EUA?
Duas sugestões de resposta:
1) no seu projeto de Estado e nação, o Brasil deve, sim, se assumir como país capitalista e seria muito interessante se os cidadãos brasileiros passassem a ter nessa opção fundamental um balizador de primeira ordem de seu comportamento eleitoral.
Por quê?
Porque o capitalismo, moderado por intervenção econômico-social do Estado, é o único regime que se mostrou com capacidade para combinar, ainda que precariamente, liberdade, progresso tecnológico e difusão do bem-estar material. Esse regime tem agora, na questão ambiental, seu maior desafio, do qual pode, sim, sair vitorioso.
2) O Brasil não deve ser nem anti nem pró-EUA, e sim um país com orientação própria no cenário internacional.
Em relação a isso, seria bem interessante que, além de não adotar discurso hostil em relação a Chávez, Morales e outros, adotasse postura claramente diferente.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Olho por olho


O governo Serra elaborou projeto de lei prevendo melhora salarial periódica substancial a professores da rede pública aprovados em testes de conteúdo.
Ótima iniciativa.
O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, já paga o décimo quarto salário aos professores com bom desempenho.
Excelente também.
Medidas como essas pressupõem a necessidade, por sinal óbvia, de se introduzirem "mecanismos de mercado" na relação entre Estado e funcionalismo.
O que caracteriza as relações de mercado?
O casamento entre prestação e contraprestação.
Quem presta melhores serviços merece melhor contraprestação.
Quem não presta serviço nenhum ou quase nenhum não merece um cargo de servidor público.
Coisas do capitalismo selvagem?
De forma alguma.
Todas as comunidades arcaicas e todas as sociedades modernas são inviáveis sem o ethos da prestação de contas, sem o jogo entre prestação e contraprestação.
Já ouviu falar de algum deus que tenha aberto mãos dos sacrifícios? Os Tupinambá, por exemplo, sabiam que, sem as oferendas, o dia seguinte não nasceria.
Ou seja, esse "mundinho" em que o fazer ou o não fazer não fazem diferença nenhuma, esse "mundinho", regido pela indiferença e o privilégio, em que as ações não resultam em prêmio ou punição, só existe, por puro oportunismo, no discurso das corporações e na lógica dos coitadinhos.
Parabéns, Serra e Campos.
E que venham outras introduções de "mecanismos de mercado" no serviço público.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Olhos nos olhos


Há mais de três meses, este blog sugeriu o nome de Marina Silva para presidenta da República.
E ela assumiu, esses dias, que analisa uma possível candidatura pelo PV.
Gostaria que Ciro Gomes fosse candidato.
Mas, já em abril, quando sugeri o nome da ex-ministra, após o (mais um) desentendimento de Ciro com a mídia, me pareceu que o PSB não o bancaria mesmo para a sucessão de Lula.
Minha ideia, então, foi que Marina concorresse pelo PSB.
Seria bom para ela, bom para o PSB, bom para a política brasileira.
Marina Silva tende a crescer no vácuo da crise do Legislativo.
Tende a crescer também no vácuo da falta de discussão política mais qualificada no país.
Por exemplo, não sabemos ainda – e parece que nem queremos saber – como compatibilizar, no longo prazo, crescimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental.
Não sei se Marina terá competência para fazer uma campanha – ou um governo – com a estatura que o Brasil merece.
Mas sua campanha pode, ao menos em certa medida, renovar a política brasileira.
Há muita gente querendo pensar o Brasil, muita gente querendo falar mais, muita gente querendo fazer mais, muita gente querendo abrir uma porta para o futuro.
Marina talvez esteja de olho nessas pessoas; essas pessoas talvez estejam de olho nela.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Dá jogo. Só falta o jogador


Sarney renuncia?
Quem sabe.
A contraofensiva peemebista dos últimos dias já teve troco: o DEM fechou questão pela sua saída.
E Lula teme o desgaste de seu envolvimento.
E se, com Renan à frente, o PMDB bater o pé?
Nesse caso, uma mobilização popular – vigorosa, inspirada e insistente – daria o empurrãozinho necessário e, quem sabe, arrastaria outros senadores para o pelourinho e a forca.
O problema de escolher os bodes expiatórios é que está difícil traçar uma linha divisória, com um mínimo de critério, entre os éticos e os aéticos.
A falta, até o momento, da mobilização já é, me parece, um indicador da importância vital de partidos políticos com um mínimo de respeitabilidade na cena nacional. Estivéssemos nos tempos do velho PT, teríamos nele um insuflador de peso desse movimento.
E não há partido herdeiro: o PSB não tem rosto; o PSOL é ultrainfantil e alguns de seus poucos líderes tiveram sua imagem ferida nos recentes escândalos; o PSDB teve sua vez de grande partido e aposentou-se, além de nunca ter sido um partido de luta; o PDT está cada vez mais distante do nacionalismo e heroísmo brizolistas e também não tem apelo junto à população.
Quem sabe se, mesmo sem apoio partidário, a mobilização não ganha corpo (porque, a bem da verdade, ela já começou com o "Fora Sarney", na internet). Aí os partidos teriam que vir atrás.
Mas como, se há sempre alguém do partido ou dos partidos aliados com o nome envolvido em algum escândalo?
Assim, só há duas possibilidades de Sarney largar o osso: ou a população, órfã de partidos, vai à luta e torna sua permanência inviável ou fecha-se um acordo escabroso por baixo dos panos e guardam-se os novos segredos até o próximo escândalo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Iniquidade nos olhos dos outros


Quando os homens vão à guerra e não retornam ou então retornam mutilados, isso não é computado como vulnerabilidade do gênero masculino.
Mas quando as mulheres de um país invadido são estupradas pelos invasores, isso é computado como vulnerabilidade do gênero feminino.
Em Darfur, boa parte dos homens adultos e jovens morreu ou tornou-se inválida em virtude de conflitos armados; porém é somente enfocado o drama das mulheres obrigadas a criar sozinhas seus filhos pequenos em meio à violência e miséria extremas.
Outro exemplo de abordagem iníqua de gênero: na Nova Zelândia, o discurso pró-equidade étnica denuncia que a maioria dos presidiários naquele país é maori. No entanto, não há um discurso pró-equidade de gênero denunciando que a maioria dos presidiários no Brasil é masculina.
Mais um: quando o vírus HIV começou a vitimar mulheres em larga escala, o discurso pró-equidade de gênero denunciou que as mulheres, em virtude do machismo, tinham dificuldade em obrigar seus parceiros a usarem camisinha; no entanto, não houve nenhum discurso pró-equidade de gênero na época em que, a cada dez homens infectados, havia apenas uma mulher: por que ninguém se preocupou em investigar as razões que deixavam os homens tão expostos aos vírus?
Fala-se muito em negros, índios, mulheres etc. quando se fala em equidade. Porém, a cegueira fundamentalista de pelo menos parte dos chamados movimentos sociais não lhes permite enxergar as iniquidades que atingem os homens adultos, independentemente de serem negros, brancos, índios etc.
Está faltando equidade nos discursos sobre a equidade.

domingo, 2 de agosto de 2009

Um corpo que cai


Por que o PT de SP não quer apoiar Ciro?
Uma resposta regional a essa pergunta não esclarece quase nada.
A verdadeira resposta é nacional:
o PT está sumindo no lulismo; o PT está morrendo; o tempo do PT está passando.
Como qualquer moribundo, o PT estribucha.
Não lançar candidato confirma esse sumiço.
Porém, surpresa PT! Lançar candidato também.
É claro que o PT ainda será grande e influente por muito tempo.
Mas será cada vez mais parecido com o PMDB, num mimetismo cuja velocidade é cada vez maior.
E o PMDB, como partido, já morreu há muito tempo.
O PT é o suicida que, no meio da queda, percebe não apenas a gravidade da Terra, mas também a gravidade da morte.
Porque, na hora do salto, a morte não tem peso. Durante, porém...
A vida revelou que o programa político do PT era velho.
Em vez de se renovar, o PT fez uma mistura esquisita de seu programa ultrapassado com o programa ultrapassado do PSDB.
E temperou tudo com fisiologismo e excesso de pragmatismo.
O resultado é essa coisa estranha, sem sentido e sem futuro, que ninguém mais sabe o que é.
Com Ciro ou sem Ciro, o chão está logo aí.
Boa queda, PT.

sábado, 1 de agosto de 2009

Ônus e bônus da democracia


A China avançou muito, apesar da falta de democracia.
A China avançou muito, por causa da falta de democracia.
Democracia ajuda.
Democracia atrapalha.
Mas democracia não é somente um meio, é também um fim em si.
Democracia é mais liberdade; portanto, mais qualidade de vida; portanto, mais saúde.
Democracia é mais desenvolvimento humano, que, naturalmente, não se limita ao desenvolvimento econômico.
Voltando, então, ao seu caráter instrumental: por que democracia ajuda?
Porque permite a adequada ponderação de interesses e a qualificação do debate, na medida em que o próprio debate realizado abertamente força a melhora dos argumentos.
Por que democracia atrapalha?
Porque favorece a guerra aberta entre todos os tipos de interesses. E como qualquer um, mesmo que não tenha rigorosamente nada a dizer, é mais livre do que na ditadura para falar, a democracia pode contribuir para desqualificar o debate.
Isso significa que a democracia tem seus ônus.
Como, porém, ela, pelo simples fato de ser um regime mais livre, melhora a vida das pessoas, é preciso suportar seus ônus.
Autoritarismo de novo NÃO!
O desafio do Brasil é aumentar os bônus da sua democracia.
Como, por aqui, a qualidade do debate é muito insatisfatória, os ônus causados pelas disputas mais imediatistas e, muitas vezes (vide crise do Senado), mais espúrias acabam tendo peso excessivo.
Enfim: o Brasil andou pouco porque usa mal sua democracia.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Olho no peixe, olho no gato


É difícil saber quem tem razão quando o assunto é clima.
Há mais de 10 anos, o pensador francês Luc Ferry afirmava categoricamente que os ecologistas eram intelectualmente suspeitos.
Hoje, o coro dos céticos parece menos triunfal.
Por prudência, precisamos acreditar no pior e, ainda assim, encontrar razões para agir, em vez de nos entregarmos ao desespero ou à apatia.
Como país que faz parte do "resto", para retomar termo de Alice Amsden acerca dos países que lutam por um lugar no mundo rico, precisamos compatibilizar demandas nacionais com responsabilidades planetárias.
Não haverá vida digna sem sustentabilidade ambiental; e, depois da vida indigna, virá vida nenhuma.
Também não haverá cenário internacional razoável e propício à paz com a atual divisão entre povos ricos e povos pobres.
Assim, o enriquecimento de países como Brasil, China etc. interessa não somente a eles próprios, mas ao mundo todo.
O desafio de compatibilizar a confluência econômica entre países pobres e ricos com as demandas de sustentabilidade ambiental é uma fronteira política e intelectual tão promissora quanto obrigatória.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Agora conto – Um cubas


Houve uma vez a neve.
E princípio e fim.
Acordei.
De dia, no meio de tudo, a mão sem flocos – sou branco.
Eu sei.

Hein? Quem? Eu?


Amartya Sen ganhou o Nobel de Economia por propor uma reinterpretação do desenvolvimento como liberdade.
Desenvolvidos são um país e um povo livres para discutir seu destino e devidamente qualificados para elaborá-lo.
O Brasil é livre para discutir, mas discute pouco e mal.
Ou seja, temos a liberdade formal; no entanto, não somos realmente capazes de utilizar essa liberdade.
Sen diria: não somos suficientemente livres.
A base da qualificação é a autoconfiança.
Isso é pedagogicamente elementar: quem não se crê capaz de aprender não aprende; quem não se crê capaz de formular não formula.
Antes disso: quem não entende que é sua responsabilidade inventar seu próprio caminho não o inventa.
Nosso problema, portanto, é pré-político, pré-intelectual; nosso problema é ético e cultural.
Porque são a ética e a cultura que dizem: quando se trata de pensar e agir, o momento é agora e o responsável sou eu.
Na contramão dessa demanda mais que urgente, boa parte de nossa intelectualidade joga o nosso tempo fora, discutindo se devemos imitar os Estados Unidos ou Cuba, quando na verdade se trata de criar o Brasil.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Livros livres de autoria


Ontem estive na livraria do Chico.
O resultado? Perdição financeira: comprei livros.
A livraria do Chico fica na UnB.
A UnB já me encantou.
Hoje me irrita.
Na UnB, conheci o amor e a política.
Mais importante: fiz grandes amigos.
Na UnB, fiz graduação, mestrado e doutorado.
Na UnB, valem mais o treinamento intelectual que a criatividade, mais a repetição que a originalidade, mais o protocolo que a produção de novos fundamentos.
Por isso, apesar de muito reconhecido, não fui muito recompensado.
Quer dizer, professores me deram pontos a menos sob a alegação implícita ou explícita de eu ter conhecimentos a mais.
Sinto mágoa quando vou à UnB.
E é a mágoa que mais me atinge e irrita.
Descontei no acervo do Chico, boa parte composta por autores estrangeiros ou por autores brasileiros que se dedicam a comentar aspectos do pensamento de autores estrangeiros.
(Vocês já repararam que, nas Humanas, certamente a maior parte dos livros produzidos e vendidos no Brasil é de autores estrangeiros ou de autores brasileiros acerca de autores estrangeiros? Sem xenofobia, ok? Mas creio que isso é um sintoma de que não nos vemos como autores de nossa própria vida).
Acho que comprei mais livros do que meu bolso podia, por culpa.
E acho que disse isso por desculpa.

Agora conto – Fulfill


– O sr. está oco.
– É grave?
– É leve.
– É bom?
– E breve.
– E onde estou?
– De greve.
– Existo?
– En rêve.
– Retorno?

– Deve.
– E findo?
– Releve.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Agora conto – Somewhere


– Para que serve o laranja?
– Para iluminar problemas e soluções.
– Serve para lamentar, em vez de pôr os pés no caminho?
– Também.
– E o verde?
– Os mesmos usos do laranja, e mais tudo o que o laranja pode abranger.
– E o impossível do laranja?
– Perfeitamente. É aí que um e outro se são.
– E o vermelho?
– Discrepa de todos, salvo em tudo mais.
– Não poderia dizer o mesmo do preto?
– Deves.
– O cinza...?
– Sim, na sua peculiaridade camaleônica.
– E não me sou?
– Em tua cor única, às vezes sinto que me és.

Papo de homem: por que não?


Precisamos cuidar dos nossos homens.
E não é de hoje.
A verdade é que os homens ainda são criados para viver como super-homens.
São criados, portanto, para lidar mal com suas fraquezas e frustrações.
Um homem que falha seriamente corre o risco de não se recuperar.
Por exemplo: os efeitos do fracasso econômico para muitos homens são devastadores.
É sua saúde mental que vai para o ralo.
Vi dois mendigos esta manhã.
Salvo a fome do primeiro, não pareciam sofrer muito do corpo, mas sim da miséria e da cabeça.
O maior serviço que movimentos de segmentos prestaram foi chamar a atenção para problemas específicos vividos por mulheres, glbt, negros, minorias étnicas etc.
Ao mesmo tempo, o maior desserviço foi vilanizar o homem.
Em vez de procurar os vilões, devemos, sim, tratar todos como cidadãos.
Mais que cidadãos – porque nenhuma cidadania nos resume –, como pessoas.
Nossos homens estão precisando de atenção e carinho específicos: a mania de ser forte cria fragilidades muito peculiares.
É hora, ora.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Agora conto – Dasein


O futuro deu um passo atrás.
E outro e mais outro.
Contra o peito.
Água no mundo, o peito espalhou-se.
Mundo e peito – sem futuro.
Outro nome de tempo e ser.

Blogosofia


Filosofo com o martelo de Nietzsche e o passarinho de Quintana.
Filosofo com o pão de Heráclito e o jardim de Epicuro.
Filosofo em grego com Platão e em alemão com Heidegger.
Filosofo com as sensações de Hume e a coisa em si de Kant.
Filosofo com o lodo de Cioran e o erotismo de Bataille.
Filosofo com Sócrates, na ágora, e Álvaro de Campos, na mansarda.
Filosofo com o lobo da estepe e o tuberculoso da montanha.
Filosofo com manha.
Filosofo com desencanto atuante e paralisia encantada.
Filosofo com.
Filosofo.com

domingo, 26 de julho de 2009

Agora conto – Leve diferença


Décimo andar.
Diante do elevador, somente branco.
Logo, viu-se envolto em branco.
Sem queda ou sustentação, permaneceu.
Perto ou longe, insinuou-se o contorno de uma linha.
Carecia, a princípio, esperar.
Mas sobreveio uma aceleração de vão e cores.
E, para sempre, no mundo de duras formas, seu peito foi uma mancha sem nome.

Enprol?


Imagino que, em maior ou menor medida, todos os povos tenham resistido à civilização em geral e ao letramento em particular.
Sim, em parte civilizar e educar envolvem coerção.
Por isso, são falaciosos os argumentos pedagógicos que põem todo o peso no lúdico ou em processos que valorizam somente o que é previamente significativo para o aluno.
O desenvolvimento intelectual tem um quê de artificial, de "forçação de barra".
Quando é o próprio indivíduo que identifica um caminho e força a barra por si mesmo, os resultados tendem a ser superiores: não existe alto desenvolvimento intelectual sem determinação pessoal.
Mas, para produzir resultados em massa, com grande repercussão civilizadora, é preciso que instituições poderosas utilizem todo o seu prestígio e incentivem e pressionem a maioria dos indivíduos a ingressar em percursos educacionais de longa duração e a incorporar em suas vidas hábitos de autocultivo intelectual.
É papel dessas instituições criar uma atmosfera social e cultural mais favorável ao estudo.
No Brasil, nem família, nem escola, nem igrejas, nem TV, nem as redes sociais, nem os partidos, nem os sindicatos, nem governantes, nem escolas de samba, nem clubes esportivos, nem instituções públicas diversas, como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Congresso Nacional etc. assumiram nitidamente esse papel.
O país precisa criar uma espécie de Estratégia Nacional de Longo Prazo pela Erradicação do Analfabetismo e Transformação do Letramento em Valor Cultural de Primeira Grandeza.
Esse seria o nome completo, mas o apelido poderia ser simplesmente Estratégia Nacional pró-Letramento (Enprol).
Os objetivos estão claros.
As instituições participantes seriam aquelas.
Que tal?

sábado, 25 de julho de 2009

Agora conto – Visgo


– Chegamos. Era isso que o sr. queria não?
– Sim, mas...
– Quer ir embora, então?
– Não, mas...
– O sr. é indeciso.
– Talvez, mas...
– Parece que sua única verdadeira certeza são objeções a suas próprias pseudocertezas e dúvidas.
– Pode ser, mas...
– Minha paciência está no fim.
– É, mas...
– O sr. me contaminou.
– Mas...
– Agora viajamos juntos numa deriva gelatinosa.
– Sim, juntos. Mas...

Brachina


Niall Ferguson cunhou o termo Chimérica para designar a carona chinesa na economia dos Estados Unidos.
Chimérica tem a ver também, segundo ele próprio, com quimérica: essa carona não é tão consistente, por isso não durará para sempre.
Não sei se é inconsistente.
Quando a economia dos EUA se recuperar, o principal candidato a uma nova carona será mesmo a China.
Além do mais, a China parece capaz de voo próprio e será a maior economia do mundo em tamanho do PIB, talvez antes de 2030, embora ainda não do PIB per capita.
Podemos fazer um Brachina?
Devemos.
Mas não estamos sabendo usar nossa única vantagem clara sobre os outros Brics: a democracia.
Uma democracia oca, como a nossa, virtualmente sem partidos, quase totalmente sem ideias, ainda é melhor do que uma ditadura.
No entanto, poderia ser muito melhor.
Que tal aproveitar 2010 para lançar uma candidatura que realmente assuma, com clareza e consistência, o objetivo de fazer da carona com a China um passaporte para a prosperidade?
Se não fizermos isso, quando a China parar de nos puxar, seremos novamente um gigante tosco e desorientado chorando à beira da estrada, esperando que uma nova China nos dê a mão.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Agora conto – Ex-comunhão


Cabeça grande e redonda.
Rato gordo perfeito.
E falava feliz, esquecido disso.
Eu não.
Rato gordo perfeito, rato gordo perfeito...
Até me olhar de um jeito de quem sabe que é rato gordo perfeito.
Até me fazer sentir como o último a saber, o último a saber de tudo, o único que nunca vai saber.
Rato gordo perfeito.
Na festa.
Com tudo.
Só eu que não.

Livre lavrador


para eduardo rodrigues

Não reclamo de um autor ser difícil.
Reclamo, às vezes, de ele ser chato.
Mas se é chato e muito inteligente, relevo.
Porque o fundamental é ter o que dizer.
O pior defeito de um autor é produzir textos inúteis e irrelevantes, considerando-se, obviamente, que o inútil e irrelevante para mim pode não o ser para outras pessoas.
E o pior pode piorar: que tal alguém que não tem o que dizer e esconde sua vacuidade atrás de um estilo pseudoerudito, pomposo e rebuscado?
As Humanidades estão cheias dessa turma.
Se você encontrar um autor difícil, denso e relevante, o melhor a fazer é merecê-lo.
Não caia nas tentações do populismo literário e intelectual.
Que bom que um autor possa ser, ao mesmo tempo, fácil e profundo.
Mas um autor difícil e profundo também tem muito a oferecer.
E o mais chato dele talvez seja a perguntinha implícita: caro leitor, você não está precisando estudar um pouco (muito) mais?
E a autopiedade do leitor reage: que cara chato!
O que não exclui a independência do leitor de procurar outra coisa, o que bem lhe aprouver, até mandar os livros às favas.
Porque, no duro, tudo é uma questão de liberdade e cultivo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Agora conto – On line


– Bem-vindo.
– ... Ah! sim. O sr. é...?
– Passageiro, como o sr.
– Ah! sim. E o trem...?
– Ah! sim. Primeira vez?
– Ah! sim. E última, talvez... O sr.?
– Ah! sim. Última, última. O trem, também, acho...
– Ah! sim. O trem... O sr. tem medo...
– Ah! sim. Medo, mas...
– Ah! sim. O túnel?
– Ah! sim. O túnel. Talvez... Podemos continuar conversando?
– Ah! sim. Até o fim...
– Ah! sim.

Pois então


Não li a matéria, só vi a manchete: DEM move ação contra as cotas raciais de acesso à universidade.
Demorou, DEM. Só lamento que tenha sido você.
Esse gesto deveria ter partido de um partido de fato democrático e republicano.
Tal partido, porém, não existe no Brasil.
Há, na esquerda, alguns políticos próximos desse perfil.
Mas o que prevalece na esquerda é o populismo; e o que prevalece na direita é o elitismo.
O centro intersecta majoritariamente populistas e elitistas.
A ação do DEM é justa quanto à motivação e quanto ao mérito.
Entretanto, ela provavelmente servirá para realimentar o ódio recíproco entre populistas e elitistas.
É mais que hora de uma terceira via, que reconheça simultaneamente a centralidade de valores como a equidade e o mérito.
A melhor forma de compatibilizar um e outro valor é melhorar a qualidade e a quantidade de equipamentos públicos, como a escola, as instituições de saúde, o transporte de massas etc.
E, para isso, o país precisa enriquecer, não somente como resultado de uma carona na locomotiva da China, mas da implementação de uma estratégia de competitividade internacional, de olho nas tecnologias ambientalmente benignas e na utilização de fontes limpas e renováveis de energia.
Populistas e elitistas são incompetentes para formular e comandar a execução dessa estratégia.
Mas são competentíssimos para comandar a política brasileira.
Então...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Agora conto – Osho e Hume


– Você demora.
– Sim.
– E o que espera obter?
– Demorar não é esperar.
– E o que acontece?
– A demora germina.
– Não compreendo.
– Você não demora.
– Atuo, verbo transitivo.
– Trânsito não é transe.
– Felizmente.
– É questão de felicidade?
– Talvez.
– Estamos de acordo.

Homem, sexo forte frágil



No início, a epidemia da aids atingia sobretudo homens, hetero e homossexuais.
Com o passar do tempo, as mulheres heterossexuais foram sendo contaminadas por maridos e namorados.
E as mulheres transmitiram aos seus bebês.
E havia as pessoas que contraíam o vírus por meio de transfusão de sangue e o uso de drogas ilícitas injetáveis.
Até que se acabaram os grupos de risco e tudo passou a ser uma questão de comportamento de risco.
Em algum momento os gays se organizaram e, de grupo vítima e vetor, tornaram-se agentes da prevenção.
Com as mulheres, em alguma medida ocorreu o mesmo.
E ambos os segmentos foram apoiados pelo Estado.
E os homens?
Os homens não se veem, tampouco são vistos, pelo menos ainda não suficientemente, como segmento.
Por isso, não são percebidos como vítimas ou como certo tipo de pessoa com certas vulnerabilidades.
Também, por não se verem como segmento, não exploram seu potencial de mobilização e atuação específica.
Vi muita gente se penalizar com a situação das mulheres e se indignar com os homens transmissores.
Mas não vi ninguém se penalizar especificamente com os homens, vistos como segmento.
Vi muita gente se penalizar com a situação dos bebês.
Mas não vi ninguém se indignar com as mulheres como transmissoras.
Fala-se muito em igualdade de gêneros.
Mas não foi isso que vi e vejo na forma como os diferentes segmentos foram e são tratados no caso da aids.
Não está na hora de mudar?

terça-feira, 21 de julho de 2009

Agora conto – Batismo


Depois da primeira camada, havia outra.
E mais outra.
E a certeza do infinito.
Diante do quê me desobriguei, em cansaço desmedido.
E, como amante, aquilo que eu antes fustigava dobrou-se sobre mim.
E se deteve em novo cansaço.
– Minha vez.
– Sua vez.
E demos nome novo à exaustão: vida.

Palavrão


Está mais do que na hora de uma política pós-luta de classes.
Os conflitos, obviamente, estão aí o tempo inteiro, à disposição para a análise e a adesão.
Mas o papel da política não é meramente aderir a uma das partes e sim apontar uma saída satisfatória para as partes envolvidas, os demais segmentos e a sociedade como um todo.
A política da luta de classes tem seu desdobramento lógico na revolução, ou seja, na ação autolegitimada, acima da ordem jurídica constituída.
A bem da verdade, enquanto dura, a revolução é ação fora da lei, qualquer lei; e não há política sem lei.
A revolução, em função disso, não é somente antijurídica, mas também antipolítica.
E Clausevitz que me perdoe, mas a guerra não é a continuação da política por outros meios – guerra é uma coisa, política outra.
Além disso, a política da luta de classes não reconhece a legitimidade das classes (supostamente) antípodas.
Portanto, a política da luta de classes não serve como política de união nacional.
Ou, por outra, a política da luta de classes somente reconhece a união nacional como horizonte legítimo num contexto de hostilidade entre as nações.
Unir o Brasil com o objetivo de melhorar a situação do país no mundo e de proporcionar uma vida mais próspera a seu povo é objetivo mais do que louvável.
Desdenhar de objetivos humanistas mais amplos, que tenham como escopo um planeta mais habitável para todos, é algo que somente os defensores da luta de classes, em versão chauvinista podem sustentar.
Qual o cerne de uma política pós-luta de classes?
Algo que uma palavrinha abjurada pelos viciados em conflito expressa muito bem: conciliação.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Agora conto – In illo tempore


– Estive no deserto e ceei com os profetas cansados.
– O que eles diziam?
– O mesmo.
– E o deus?
– Sem força ou imaginação.
– Sua jornada foi, portanto, em vão.
– Sim. E o que suas entranhas lhe dizem?
– O mundo principia.

You'll never walk alone


Deve haver um fator civilizatório mais inteligente que a tristeza – ou modesta alegria – freudiana.
Deve haver, na civilização – uma civilização viável, próspera, confiante – mais alegria e prazer.
Deve haver, também, um caminho para a dignidade que não passe principalmente pela indignação.
Deve haver mais celebração da individualidade, sem que seus eventuais excessos sejam ponderados pela culpa.
Deve haver um novo estágio, sem que para isso sejam necessários os gritos e a demência de Nietzsche.
Freud e Nietzsche tinham muito em comum.
Tinham, porém, uma diferença importante: o primeiro se guiava por emoções de baixo perfil; o segundo, pelo delírio.
Eram ambos, ao mesmo, dotados de rigorosa racionalidade.
Teremos capacidade para uma nova racionalidade, associada a emoções que superem a frieza de Freud e a insanidade de Nietzsche?
Talvez Jung, Bataille e Campbell já sejam, mais que um ponto de partida, o curso dessa caminhada.

domingo, 19 de julho de 2009

Agora conto – Aldeia


Depois de meses sem dar as caras, bateram à porta.
Não atendeu.
Outros tantos.
E toda a vizinhança.
Logo, a TV local e a CNN.
– Estou vivo.
– Não basta.
– Estou na net.
E o mundo se recompôs.

Distantes da estante


Abraçamos o rádio.
Depois a TV e a TV por assinatura.
Agora, estamos entre os campeões da internet.
Nunca, porém, abraçamos o livro.
Uma coisa que caracteriza os países mais ricos do mundo é sua fortíssima relação com o livro.

O brasileiro ainda lê em média poucos livros por ano.
Isso vem de longe.
E não vai nos levar muito longe.
Ou talvez leve, mas é bem devagarinho.

sábado, 18 de julho de 2009

Quando Sparagmós ajuda Sparagmós


Não somos vítimas da vida.
Essa é uma verdade elementar, mas é difícil guiar-se por ela.
Seres humanos têm aspirações e não é fácil sonhar na medida certa de nosso precário heroísmo.
Frustradas certas expectativas, ainda que provisoriamente, comparece a tristeza, que, se desmedida, converte-se em lástima.
A lástima migra do insucesso específico e provisório para o todo da condição do lastimoso.
Ele é um coitado.
Um coitado é uma vítima, e toda vítima tem seu algoz – não importa se uma pessoa, um grupo, um país, uma época, deus, o diabo, o indefinido.
Há poucos dias, uma amiga me falou de paciência.
Não foi a primeira pessoa que me falou disso.
Talvez não haja uma só pessoa que não tenha me falado disso, ou que não tenha pensado em me falar disso.
Mas as palavras têm sua hora de soar.
A hora de soar de uma palavra é composta de todas as horas em que ela soou antes e da hora presente, em que ela soa com toda a sua força e glória.
Paciência.
É hora.

Agora conto – Vida


Recém-acordada, cara amassada – guerra contra o mundo.
Mas o dia nasce, e céu, carro, fumaça, ônibus velho e gente amassada que nem você é vida nova.
E a vida velha e carcomida que ainda se remexe aí – no imo, na pele – responde e já é vida nova também.
Quase diz bom dia pro motorista, quase agradece o lugar cedido.
E anda e anda e anda até o trabalho.
De manhã, alegria.
Meio dia, remorso do riso.
De tarde, ressentimento.
De noite, a travessia do marido e de algum filho esquecido de crescer e fugir.
E a tumba.
– Boa noite, vea.
Nem pensa em responder.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Agora conto – Singular no plural



Cansado de ser chamado de tímido, hermético, vago, incoerente, elitista, desistiu das letras.
Foi aos números.
– Sua fórmula parece consistente, mas somente o senhor consegue operá-la.
– Ele se opera sozinha e não é fórmula, é sugestão.
– De?
– De que outros façam suas próprias fórmulas auto-operáveis.
– Isso certamente não é matemática. O que seria?
– Matemáticas.